SÓ O AMOR PERMANECE

Para viver, crescer e sonhar

Name:
Location: Lousã, Portugal

Ana Paula Reis (Selecção de textos) e Maria Laranjeira (Fotografia)

Tuesday, October 31, 2006

CONSOLO



" No dia do enterro da sua mãe, C. foi picada por uma abelha. Estava muita gente no pátio da casa da família. Vi C., no infinito dos seus quatro anos, ser surpreendida primeiro pela dor que a picada lhe provocara; a seguir, mesmo antes de começar a chorar, buscar avidamente com os olhos, por entre todos os que ali estavam, aquela que desde sempre a consolara, e parar bruscamente essa procura, por, de repente, ter compreendido tudo acerca da ausência e da morte. Esta cena, que durou apenas alguns segundos, è a mais pungente que já vi. Existe para cada um de nós uma determinada hora em que o conhecimento inconsolável nos invade a alma e a despedaça. È à luz dessa hora, já chegada ou não, que todos nos devíamos falar, amar e, se possível, rir juntos."

Extraído de: " Ressuscitar"
De Christian Bobin

Tuesday, October 24, 2006

SURPRESAS


"O mundo está cheio de surpresas que nos põem a caminho. Como aquela criança que olhava fascinada para o pai. Este dizia-lhe: "Vês aquela coisa grande, ali, alta, é uma árvore. E aqui - enterrava uma sementinha - vai nascer uma como aquela". A criança abria a boca de espanto e sorria. Acreditou. Não é que tivesse lógica, mas era o pai que lhe dizia".

Extraído de: " Não há soluções, há caminhos"
Pe. Vasco Pinto Magalhães, s.j.

Saturday, October 21, 2006

SABEDORIA


"Há dois tipos de sabedoria: a inferior e a superior. A sabedoria inferior é dada por tudo o que uma pessoa sabe, e a superior é dada pela consciência do que não se sabe. Os verdadeiros sábios são os mais convictos da sua ignorância. Desconfiem das pessoas auto-suficientes. O orgulho é um golpe contra a lucidez, um atentado contra a inteligência" ( ...) "Muitos pensam que Jesus só discorria sobre a fé, mas Ele utilizava uma das melhores ferramentas para abrir as janelas da mente humana: a arte da dúvida. Ao longo da minha trajectória como pesquisador, percebi que a arte da dúvida é uma ferramenta fundamental para expandir o leque do pensamento. A morte de um cientista ocorre quando ele deixa de duvidar do seu conhecimento" (...) " (Jesus) primeiro usava a arte da dúvida para remover os preconceitos das pessoas, depois discorria sobre a fé. Portanto, discorria sobre uma fé inteligente. Um homem tão inteligente só podia falar sobre coisas inteligentes. As pessoas são controladas por tudo aquilo em que crêem. Através da ferramenta da dúvida, o Mestre libertava as pessoas da ditadura do preconceito e depois falava do Seu plano transcendental"

Excertos de "O Mestre do Amor"
Augusto Jorge Cury

Thursday, October 19, 2006

A PAIXÃO DE CRISTO


Caros amigos!!Aqui vai a opinião de Laurinda Alves sobre o filme a Paixão de Cristo (excerto do texto que publicou na revista XIS de 20/3/2004):"Acompanhada de um grupo alargado de amigos, uns mais crentes que outros e cada qual com a sua sensibilidade particular a esta realidade bíblica da Paixão de Cristo, assisti a um filme que fez a diferença no meu percurso de vida. E explico porquê.Primeiro porque é um filme de uma beleza incrível. Pela luz e pelas sombras, pelo céu imenso, pela côr púrpura do entardecer, pela lua muito cheia e sempre muito rente ao horizonte, pelo movimento das nuvens no céu e das pessoas na terra, pelo vento que sopra nos montes, pelos pensamentos que se lêem e pelos que se adivinham, pelas palavras ditas e pelas que ficam por dizer, por todos e cada um dos personagens centrais ou laterais mas, acima de tudo, pelo olhar de Cristo.Mais do que o olhar de um actor de cinema que interpreta magistralmente o seu papel, aquele olhar marca porque não existe outro igual no mundo. E esse é, porventura, o maior prodígio do realizador e da imensa equipa técnica que o acompanhou: saber iluminar e filmar um olhar divino.O verdadeiro olhar que salva, que nos resgata e dá sentido àquilo que não tem sentido nenhum.Apesar do sofrimento físico, de todas as dores morais e angústias espirituais, aquele olhar permanece luminoso, infinitamente doce e misericordioso. O olhar clemente e compassivo com que todos gostaríamos de ser olhados um dia. Passe o tempo que passar, sei que aquele olhar terno e puro me vai acompanhar para sempre e que vou voltar a ele para me lembrar que nunca estou só nem ficarei desamparada.E é porque, embora parcialmente desfigurado, o olhar de Cristo permanece inteiro, lindo, limpo e profundamente unido ao essencial que o filme é suportável naquilo que tem de mais chocante. Quando o sangue é demasiado ou as vergastadas intoleráveis, existe o olhar de Cristo que sofre, aceita, perdoa e nos conduz a Ele.O único olhar comparável ao de Cristo é o de Maria que chora em silêncio e acompanha o filho nas aflições da condenação, flagelação, coroação de espinhos e crucificação. Maria assiste a todo este calvário com um amor desmedido e a sua presença é inabalável, comovente e consoladora. E, também ela, redentora na medida em que nos ajuda a olhar e a ver aquilo que, sem ela, seria impossível testemunhar.Muitos declaram-se chocados com o excesso de violência mas eu confesso que não vi nada naquele filme que me chocasse mais do que muitas outras coisas que vejo na vida real e noutros filmes. Seja no cinema ou em casa, em directo, todos vemos muito para além daquilo que é suportável ver. Todos sabemos que o sofrimento existe com contornos desproporcionados e extraordinariamente perversos. Podemos alimentar a polémica sobre o grau de violência d'A Paixão de Cristo mas não é nem mais nem menos gritante do que aquilo a que assistimos frequentemente.A grande diferença, para mim, é o sentimento redentor daquele sofrimento. É saber que foi real, excessivo e durou aquele tempo todo mas não foi em vão. O que se revela chocante, até mesmo para os que crêem, é assistir a este sofrimento numa espécie de tempo real e testemunhar que foi assim que tudo aconteceu."

Laurinda Alves